quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Vida de professor [crônica]


Bisavô professor, avó professora, mãe professora e eu, pra variar, educador. Chique, não?! Parece que se intitular “educador” é mais política e pedagogicamente correto. Mas discussões semânticas e filosóficas à parte, ser professor é optar por uma das mais pelas profissões. E mais que isso. É ter vocação para o ensino, para o fomento do senso crítico, para o pensar sobre a vida e, quem sabe, sobre a morte. O ortopedista, por exemplo, pode até fazer uma criança andar, mas o professor pode fazê-la voar.
É notório que nos países orientais a figura do professor é muito valorizada. Dizem que no Japão todos se curvam ante o imperador. Todos, menos uma classe: os professores. Eles acreditam que os professores detém os caminhos da sabedoria e por isso devem ser honrados. Nessas horas gostaria de ser japonês. Mas por graça divina “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. Sou amazônida, amapaense e “neotucuju”, com muito orgulho.
Já ouvi muitos “causos” e acumulei uma meia dúzia de experiências vendendo aulas há quase dezoito anos na rede estadual de ensino. Sim, vendendo. Ou vocês acham que professor tem que “dar” aulas. Sai fora, “mané”! O único que trabalha de graça é relógio! Pois bem, relatemos um desses hilários episódios, “para nossa alegria”:
“A aspirante a professorinha, aluna do curso de magistério, estava certa manhã ministrando uma aula de Ciências Naturais, no temido estágio supervisionado. Pensem no estresse. Além de ter que planejar a aula, dominar a classe de periculosos infantes, encarar o olhar debochado da professora regente, ainda precisava tapear a professora de Didática, juíza impiedosa da correta aplicação dos procedimentos pedagógicos da normalista.
“Tema da aula anunciado: MAMÍFEROS E AVES. A jovem desenvolveu então, com relativa tranquilidade o conteúdo, ressaltando as características desses animais, segundo as técnicas construtivistas, em voga naquela conjuntura, o que agradou as avaliadoras e a deixou mais confiante de uma boa nota. Mas minha mãe sempre diz que alegria de pobre dura pouco e ironicamente a quase professorinha caiu no disparate e fechar a aula com chave de ouro e disse à turma: – Alguém quer perguntar algo sobre a aula e tirar suas dúvidas?
“Fatalmente ela descobriu uma verdade indelével: toda turma sempre tem um ou dois alunos espertinhos que, se possível, farão de tudo para pegar o mestre pelo pé.
“Juquinha, o mais falante da classe, levantou a mão e indagou: – Professora! A senhora sabe qual é o animal que de manhã cedo é mamífero e de noitinha é ave?
“A estagiária ficou desconsertada, mas usou a carta escondida na manga. Devolveu a batata quente para Juquinha, dizendo: – Sinceramente eu nunca ouvi falar de um animal que de manhã cedo é mamífero e de noitinha é ave. Você sabe qual é?
“– É fácil, professora. É a minha mãe! – respondeu empolgado o garoto.
“– Sua mãe. Não entendo! – exclamou a jovem estudante.
“Juquinha então desfez o mal entendido:
“– É que de manhã cedo papai grita lá no quarto: - Acorda pra fazer café, sua VACA. Já de noitinha, ele fala bem baixinho: - Vem cá, minha POMBINHA.”
Moral da história: Vida de professor é que nem rapadura. Até que é doce, mas não é mole não. Por isso merecem parabéns os mestres que dignificam nossa nação semeando o conhecimento, trazendo luz às mentes havidas por sabedoria. Que nossos governantes, pais e estudantes os valorizem, pois sem eles, aprender seria uma tarefa bem mais difícil.
Penso, logo digo! 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Em ano eleitoral... [crônica]



É quase inacreditável os “milagres” que acontecem em ano eleitoral. E olha que sou um homem de fé. Todo político se torna atuante, os projetos acontecem, os recursos aparecem e o eleitorado, coitado que é, refém das mazelas retroalimentadas pelo poder público carcomido pela corrupção e descaso, acaba acreditando que a democracia é perfeita e que o poder – quem nos dera! – emana do povo e está a serviço do povo.
Parece que política, muito distante dos ideais da antiga Grécia, virou profissão. Paga bem e quase não exige qualificações técnicas ou mesmo éticas. Vejam só meus amigos: peladeiro, mercenário, cangaceiro, traficante, meliante e até palhaço já se travestiram de tribunos e os temidos terroristas de minha infância, estão no comando da nação. E apesar de não concordar nem um pouco com o estilo de vida pregado pelo cantor Cazuza, talvez num de seus delírios – que não foram poucos – nos deixou em sua “Ideologia” uma pérola atualíssima: “Os meus inimigos estão no poder... Ideologia, eu quero uma pra viver”. Se não fosse trágico, seria cômico. Mas é imperioso rir pra não chorar. Até porque o ato de rir movimenta mais músculos da face e se não ficamos mais jovens, de quebra nos tornamos menos feios.
Mas brasileiro, como afirma a sabedoria popular, “não desiste nunca” e ainda assim consegue fazer piada de sua própria desgraça. Isso me lembra que meu querido pai, ainda vivo para não me deixar mentir sozinho, habilidoso contador de “causos” que é, relatou o que ele assistiu de corpo presente quando ainda era criança pequena no interior do vizinho Estado do Pará:
“Como aquele era ano eleitoral, o prefeito velhaco, viciado em poder não queira de jeito nenhum perder aquela reeleição e deixar a mamata. Ele sabia que o povo tem memória curta e apesar de não ter feito grande coisa durante os quatro anos de mandato, precisava justificar sua candidatura e tapear mais uma vez o eleitorado. Aconselhado por seus correligionários, antes de se afastar do cargo para promover sua campanha, resolveu inaugurar uma nova rede de abastecimento de água. Como era de praxe, contratou a empreiteira de seu cunhado sem licitação, garantindo o superfaturamento da obra e após escavações e mil transtornos para os munícipes, o dia da inauguração foi marcado.
“Feriado, cidade pequena, sabe como é, qualquer novidade é motivo de alvoroço. Lá de cima do coreto o padre benzeu, a banda tocou, o prefeito discursou e chegou a tão esperada hora em que a torneira pública, instalada na praça da cidade, bem defronte da Igreja, seria aberta e todos veriam a água jorrar. Mas para surpresa de todos, da torneira só saiu ar acompanhado daquele som característico dos dias de racionamento. O espanto foi geral e a vaia da turba foi inevitável.
“O prefeito, pra não perder a compostura, chamou de pronto o engenheiro responsável pela obra e exigiu explicações sobre aquele problema. O engenheiro, meio sem graça, respondeu: Prefeito, tenha paciência que o problema é a lei da gravidade de Isac Newton.
“Mais que depressa o prefeito ordenou ao presidente da câmara que estava bem do seu lado: Reúna imediatamente os vereadores que eu quero a lei desse vereador safado revogada ainda hoje!”
Moral da história: Em ano eleitoral quase tudo pode acontecer e qualquer semelhança com a vida real NÃO terá sido mera coincidência.
Por isso, fique de olho bem aberto. O meu e o seu voto são muito valiosos e não deve ser desperdiçado, nem vendido, nem trocado.

Penso, logo digo!